quinta-feira, outubro 30, 2008

Hoje acordei com a missa, e não, não estava a ser visitado por Deus

Hoje acordei com a missa.

Se vivo perto da igreja? Sim, por acaso até vivo, mas nem foi o caso de as beatas andarem aos berros, de os sinos não pararem de tocar ou de haver um desfile de crianças barulhentas a celebrar seja lá o que for... Foi mesmo na televisão, maravilhas da Tvi, fiquei a saber que se toca tuba nas missas portuguesas.

Claro que isto, para quem é apanhado assim de repente, levanta logo duas questões: afinal porque é que alguém dorme com a televisão ligada, ainda para mais na Tvi, e mas afinal o que é que este gajo tem contra a missa, a religião é uma das bases das civilizações etcetera e tal.

Começando pelo fim, não consigo perceber a vertente de auto-comiseração/cultura da desgraça que há à volta do cristianismo. "Senhor, não sou digno que entreis na minha morada mas dizei só uma palavra e eu serei salvo"? "Pensamentos e palavras, actos e omissões, por Minha culpa", Minha culpa, minha TÃO grande, grandessíssima culpa.


Porquê? Porra, eu tive uma educação católica, mas desde cedo que percebi que isto tudo era uma merda, que há desgraças constantes, perdas incontornáveis, sofrimento perene. E agora vou pôr as culpas em mim? Era só o que faltava. Aparentemente o que se passa é que tudo o que acontece de bom é feito por Deus, e tudo o que é mau é feito pelos homens...


Que coincidência. (Ainda por cima, tanto quanto parece, Jesus devia ser um gajo fixe, ele de certeza que não se importava de entrar nas casas das pessoas, independentemente da arrumação, pelo visual dele o gajo só podia ser um gajo relaxado... Aquela gadelha e o barbão não enganam, se ele passasse hoje à porta da igreja de certeza que o olhavam de lado...)

Bem, antes que me perca, porque é que se dorme com a televisão ligada? Insónias, Whiskey ou falta dele, agora escolha.

quarta-feira, outubro 29, 2008

Escrever é possível, mesmo para um analfabeto, mas muitas vezes devíamos guardar os seus resultados

Empurrar letras. Até me deram algum apetite, mas a primeira coisa que me ocorreu foi mesmo o Fu Manchu, que eu lia quando era miúdo.

Sabe bem empurrá-las e criar algo, em vez de simplesmente me empanturrar. Tal faz-me sair de um lugar frio, onde nem sequer o luar chega. E claro que há experiências menos agradáveis. Se sentir dor é mau, ler os resultados da dor de outro tem à partida tudo para ser pouco apelativo.

E ainda bem!

Imaginem que a Margarida Rebelo Pinto continuava a ter tanto sucesso como tem mas, em vez de escrever baboseiras ainda piores que as minhas (digo eu com lata), escrevia todos os resultados da sua dor.

Ao menos hoje em dia a sua escrita só implica a dor de quem a lê.

indecisões no meio de confusões

Ao tentar calçar meias de vidro, armada em tonta, ficou com os pés todos comprimidos.

Ficou com pena porque já não podia sair de casa mascarada de Mary Poppins e passou a noite quase toda a atirar guarda-chuvas de chocolate ao ar.

A certa altura, apesar de tudo ainda a querer empinocar-se, lembrou-se que lhe tinham assaltado a casa e lembrou-se que perdera o seu pente, ficou só a caixa de cartão. Que remédio, pensou ela, vou ter que me tentar pentear com os tais guarda-chuvas de chocolate a fazer festas no cabelo.

No meio do tédio pensou se havia de tomar duche ou drogar-se toda. Nem uma coisa nem outra. Teve preguiça de tomar duche e estava já cheia de comichão no nariz.

Apesar de tudo, houve noites bem piores.

terça-feira, outubro 28, 2008

O puto zeca já foi puto, e ainda é

"Assim fico a pensar que afinal não tenho muita barba." - pensou o Zeca. Também, seria terrível para um crescido que ainda se sente uma grande criança ter um aspecto tão adulto.

Mesmo com muita barba, trazia sempre consigo o burrinho. O tal burrinho que não servia para nada. Não o transportava e só trazia flores, mascarado de hippie. Mas era simplesmente daqueles casos em que, mesmo sem jogar com ele, era óptimo.

"Raio do brinquedo." - imaginava o Zeca sempre que pensava no seu poder. E não deixava de pensar que ele não voa, mas que consegue ser mais bonito que muitos que voam.

Tal como não há verdade absoluta, o brinquedo perfeito para o mundo inteiro não existe. E, se calhar, isso só fazia o Zeca passear ainda mais satisfeito o burro florido para todo o lado.

"Único, só meu, e ninguém poderá nunca ter um igual."

sexta-feira, outubro 17, 2008

O som e as palavras

Daqui a 2 dias e meio vão crescer palavras em todo o lado. Já foram regadas por todos, o druida da aldeia tomou especial cuidado e parece que há bom caminho. Ainda por cima o Zacarias é mudo e, ao que consta, vai-lhe aparecer uma palavra na testa e pela primeira vez na vida todos o vão perceber.


Não é que ninguém perceba os grunhidos intensos que preenchem a vida de toda a gente, mas é um bocado cansativo e nunca se tem a certeza de nada. Quem pede um café e quer adoçante em vez de açúcar perde ali meia hora a grunhir para que percebam o que a pessoa quer. E no fim, está tão cansada que afinal vai precisar de mais um.

Falando em palavras e em açúcar, ouvi uma novidade espantosa que preciso de partilhar convosco. Parece que os Morangos Com Açúcar vão deixar de ser dobrados por computadores e finalmente vão parecer pessoas reais a falar. Que maravilha… Acho que se calhar vou ficar com algumas saudades dos primeiros, mas ninguém pára a evolução tecnológica.

quinta-feira, outubro 16, 2008

O magnífico, e tão pequeno, poder das palavras...

Uma cereja chorava em solidão enquanto o funcionário berrava: "Já. Loucamente suave!"

O Joy da natureza estava estragado e fez desaparecer o olhar do meu filho Vasco. Parece que é impossível sentir dor sem ter amor, mas eles que se calem.

Instantaneamente, afundei os açores para as moscas fugirem ao destrambulhamento.

Querida janela

Houve um tempo em que a minha janela se abria para me chatear. Depois, decidiu comprar-me um divã e ficou bem melhor...

Houve um tempo em que a minha janela dava para me ajudar a passar o tempo. Mas ela era terrível era a lamentar-se acerca da sua vida.

Houve um tempo em que a minha janela se abria sobre a vida amorosa dela.
Sinceramente, acho que prefiro mesmo cadeiras, por muito que tentem sempre fazer com que fique quieto.

Às vezes abro a janela e suicido-me, o que já me fez arrepender-me inúmeras vezes. Uma janela não merece tanto. E ainda por cima, tenho sempre que ir fumar à janela.